Roma e o misterioso Povo da Seda!

RomaPor: José d'Encarnação

 

 

Nada mais oportuno, dir-se-ia, do que procurar saber que ideia teriam os Romanos acerca dos Chineses, numa época, como o é a nossa, em que a China ganhou tão grande protagonismo, designadamente a nível económico, de tal modo que já não é excepção ouvir um avô dizer que o neto está a aprender mandarim!...

Louve-se, por isso, a iniciativa de ter sido incluído na colecção dirigida por Francesca Cenerini e Gabriella Poma, «Itinerari di Storia Antica», com o nº 8, o livro, de Emilia Michelazzi, Roma e il Misterioso Popolo della Seta (Pàtron Editore, Bologna, 2018, ISBN 978-885-5534-33-8).

 

 

 

 

 

Trata-se de uma colecção, aparentemente de livros de bolso, de poucas páginas, mas que se reveste do maior interesse, pelos temas que nela, até ao momento, foram abordados, uma vez que, em estilo leve, não descuram (antes pelo contrário!) a sólida fundamentação científica. Veja-se por alguns dos 8 títulos já publicados: Rómulo, Filho do Fogo; Contra o Príncipe: Conjuras e dissensão na Roma de Augusto; Os Deuses que Curam: Asclépio e os Outros; Viator – A viagem dos Romanos.

Começa Michelazzi por referir que, «na era contemporânea, a atenção do mundo europeu e ocidental se voltou, cada vez com maior frequência, para a China, qual temível adversário comercial, qual potência em irreprimível ascensão e como “perigo amarelo” que impende sobre o Ocidente» (p. 7).

É, na verdade, esta uma mui sugestiva viagem no tempo, esmiuçando-se, com base nos relatos das várias épocas, que relações houve e que atitudes se assumiram, sobretudo por parte dos Romanos, em relação a esse povo misterioso:

«Seguir o percurso das rotas da seda, servindo-nos dos testemunhos dos viajantes, dos escritores, dos mercadores que esses itinerários percorreram e chegaram a conhecer a extraordinária riqueza do tecido dos Seres (leia-se Séres], menosprezando-o ou amando-o loucamente» (p. 8).

Para além de ensaiar com êxito uma reconstituição histórica, apresenta-nos a Autora «instrumentos de reflexão e de aprofundamento da realidade hodierna, num contínuo diálogo entre o passado e o presente», que sirvam não apenas para quem deseje estudar as relações sino-romanas, mas também apra os curiosos que almejem abordar o tema pela primeira vez (p. 9).

Um povo misterioso, esse. Acerca dele se foram urdindo lendas, gerando fantasias, onde a utopia não poderia deixar de exercer um papel assaz relevante:

– Descreve-o Estrabão como um povo de vida longa, devido «a uma higiene alimentar correcta, a uma existência pacífica e tranquila e por ser rico o seu solo natal» (p. 28);

Sera Metropolis, a sua capital, «deveria ser uma cidade prestigiosa, quiçá Chang’an, a ‘cidade da paz eterna’» (p. 69);

– «São os Seres [o povo produtor da seda, sera em Latim] um povo sereno e dado a viver pacifica e ordenadamente; honestos, justos, com princípios morais; na sua terra não há ladrões e assassinos nem adúlteros ou prostitutas: é, enfim, um povo desconfiado, que pouco interesse tem em estabelecer relações com os estrangeiros» (p. 110-111).

Compreende-se, de resto, esse halo de mistério, que durante tanto tempo pairou em Roma. Primeiro, devido à distância: era muito longe, não se sabia bem onde, para lá dos Partos, que os Romanos acabariam por derrotar (recorde-se a desastrosa expedição de Crasso em 53 a. C.) e que, nos primeiros séculos, haviam servido de intermediários. Depois, porque nem lhes passava pela cabeça que esse fio proviesse não de uma planta mas de um casulo animal!

Após a introdução, em que pergunta se, de facto, Roma e a China foram «universos distantes» – e é a resposta a essa questão que se propõe abordar – Emília Michelazzi percorre a história, em capítulos de título deveras sugestivo:

– O século II a. C. Tudo se desenrolou em torno de um «fio»: a Rota da Seda.

– O século I a. C. Insígnias esplendorosas e um povo misterioso: os Seres em Roma.

– O século I d. C. A «sedamania» entre o vitupério e a moda.

– O século II d. C. A China está perto: a embaixada do ano 166 d. C. e a Serica de Ptolemeu.

– Séculos III-IV d. C.: Crises e mudança.

– Séculos V-VI d. C. Parte-se o ‘fio’: a sericicultura em Constantinopla.

– Conclusões: quem eram, afinal os Seres?

Dizem os autores chineses que a Rota da Seda, esse percurso – assaz labiríntico – que ligou a China ao Ocidente, poderá ter sido ‘inaugurada’ quando, em 138 a. C., Zhang Qian, oficial da corte, empreendeu uma expedição a Battriana, localidade sita no norte do Afeganistão actual (p. 14). Teve ocasião de verificar, nessa altura, que não se conhecia a seda nos países que atravessara. Seria, pois, esse um mercado promissor, que só alguns anos mais tarde logrou aproveitar-se, quando houve possibilidade de se abeirarem da terra dos Partos.

Claro, a rota não seria apenas «da seda», mas de todo um conjunto de produtos passíveis de interessar ao comércio entre os vários povos. Manteve-se, porém, a designação, «graças às características materiais da seda, que ainda hoje deslumbram o olhar – o brilho, a elasticidade, a leveza, o toque mórbido… – e que, seguramente, a tornavam mais apetecível do que as demais mercadorias e maior atenção despertava dentre tantos outros produtos» (p. 18).

Bem escrito, amiúde relacionando a Antiguidade com o que se passa nos nossos dias, o livro lê-se num fôlego, até porque a Autora sabiamente entrelaça na narrativa os depoimentos dos autores antigos, interpretando-os com rara argúcia, que dá gosto apreender.

E leva-nos a fazer comparações, a nós, Portugueses, cujos antepassados a essas paragens chegariam uns séculos mais tarde. Se os Romanos consideravam longínquo e perdido nos longes esse país da seda (Pausânias chegará a «considerar a Serica como uma ilha do Mar Vermelho, habitada por gentes de tez escura» – p. 73), também os Portugueses demandaram o Reino do Preste João, nos longes perdido; se os Romanos começaram por ver com maus olhos quem de seda se vestia, igualmente as especiarias vindas do Oriente aqui não foram benquistas por todos: «Mas temo-me de Lisboa que, ao cheiro desta canela, o reino nos despovoa», escreverá Sá de Miranda...

Aproveite-se para referir, a talhe de foice, que essa eventual relação entre o tema tão eficientemente versado por Emilia Michelazzi e as façanhas dos descobrimentos portugueses falta, obviamente, aqui, não apenas por se tratar de uma outra época, mas porque, mesmo em termos de comparações, necessitaria a autora de estar minimamente por dentro da epopeia marítima portuguesa – o que, naturalmente, não é o caso.

Refira-se um outro aspecto: o imperador Adriano (117-138) mandou abrir, ao longo do norte do Mar Vermelho, a chamada Via Hadriana; tal facto melhorou a circulação dos produtos e facilitou a difusão de notícias, o que contribuiu para que, em Roma, se começasse a ter uma ideia mais clara do que era, de facto, a China real. A Autora não se esquece de o referir e a nós lembra-nos a importância que vão ter, mais tarde, os almocreves medievais: levavam mercadorias, sim, mas igualmente as novidades, o que muito favoreceu a criação de uma comunidade mais estreita.

Ainda neste âmbito do possível relacionamento com a história portuguesa, é a referência ao facto de, a determinado momento, entre as mercadorias trazidas da China, ter aparecido um fruto até aí desconhecido, a laranja, Citrus sinensis de seu nome científico. Caberia, neste caso, a alusão à circunstância de só no século XVI a laranja doce se ter vulgarizado na Europa, trazida pelos Portugueses, o que determinou ser designada portokali em grego, portakal em turco, portocala em romeno e portogallo nos dialectos da Península Itálica…

Voltemos às reacções romanas. Um escândalo, o uso da seda! As «célebres sericae vestes [os trajes de seda] servem (diz-se…) para vestir, ou melhor, para ‘desvestir’ as matronas romanas, suscitando o vitupério dos bem-pensantes»! (p. 8). Ridicularizados eram os homens que as usavam, sobretudo se tintas de púrpura e com enfeites dourados e mui complicados recamos (p. 83-84). O imperador Heliogábalo (218-222), por seu turno, não hesitará em menosprezar a lã, uma fibra demasiadamente grosseira, quase um insulto – dirá! Assumindo-se como incarnação do deus Sol, o imperador preferia a luminosidade da seda! (p. 84).

O mundo da moda, sempre provocante – e não resisto a evocar, nesse âmbito, o que foi a reacção, nos anos 60 do século passado, à minissaia criada por Mary Quant!...

Plínio, cujas tendências misóginas não são desconhecidas, condena o comércio com o Extremo Oriente, «causa da decadência dos costumes romanos» (p. 53). Em Naturalis Historia, XXI, 11, ao referir-se às coroas habitualmente oferecidas aos deuses e colocadas nos sepulcros, diz que se prefere, agora, dá-las «com tecido de seda de cores variegadas, embebido em perfumes», perorando: «O requinte das damas exige este recentíssimo achado» (p. 54), que os sericarii comercializavam.

Anota, porém, Emilia Michelazzi que, neste caso, não será apenas uma questão de moralidade mas que também se deverá ter em conta o elevadíssimo preço atingido pelas sericae vestes, a provocar desequilíbrio na balança comercial. De resto, as vestes de seda virão a figurar no Edictum de pretiis rerum venalium, o regulamento de preços elaborado sob o reinado de Diocleciano, no início do século IV: uma simples camisa de seda, sem enfeites, tinha um preço que variava entre os 1250 e os 2000 denários; uma libra de seda branca, em bruto, valia 12 000!... (p. 99).

O interesse pelo uso da seda irá ter duas consequências.

A primeira, a sua escolha para as cerimónias litúrgicas. Fala Apuleio (Metamorfoses, XI, 8) da preferência que, no século II, os sacerdotes de Cíbele tinham pelos tecidos de seda amarela, e da sua utilização nas procissões em honra de Ísis (p. 75).

A segunda surgirá no seio da Igreja: Tertuliano chega a afirmar que, antes do pecado original, a seda não fora cobiçada pelas mulheres (p. 88). E S. Jerónimo aconselhará o retorno à primitiva prática do fiar da lã, como honesta ocupação das donzelas (p. 89).

Não resisto, ainda, a transcrever uma passagem, quer pelo seu conteúdo, que totalmente perfilho, quer por ilustrar bem o que atrás se dizia acerca da comparação que a Autora não deixa de fazer com a actualidade:

«Como nos nossos dias acontece, é frequente, nos momentos de crise, não se renunciar de boamente àqueles bens supérfluos susceptíveis de mostrar aos outros a nossa posição social e para se ter a ilusão de que, mergulhados no luxo e nas riquezas, nada mudou em relação ao que era dantes; assim acontecia na sociedade romana, em que havia compradores dispostos a gastar tudo até ao último denário, só para não terem de renunciar a usar sericae vestes» (p. 81).

E chegamos ao século IV. O preço da seda subira excessivamente, de modo que, no ano de 369, uma cláusula do Código Teodosiano determina que a produção de tecidos de seda só se efectue nos gineceus, ou seja, a título privado e em casa, nas dependências aí reservadas às mulheres. Constantinopla tornara-se o novo «centro nevrálgico do comércio e da produção têxtil, mormente daquelas requintadíssimas peças de vestuário, bordadas a ouro, ou de seda entretecida com fios de ouro também, tanto para a moda feminina como para a masculina» (p. 102).

Depressa, portanto, «as Rotas da Seda vão perder a sua razão de ser, a partir do momento em que a preciosa fibra deixa de ser transportada por aí e os tecidos de seda ora se confeccionam no Ocidente. O remoto Povo dos Seres perde, pois, boa parte do seu fascínio» (p. 107).

Depois de evocar a célebre frase de Napoleão «Quando a China acordar, o mundo irá tremer!», termina a Autora com um voto – que é, naturalmente, o de todos, historiadores e cidadãos:

«Que os Seres dos nossos tempos sejam, cada vez menos, os ‘longínquos’, os misteriosos e ameaçadores que como tal se foram revelando ao longo da história; e que os três mil anos que ora nos separam das censuras de Plínio hajam servido para estabelecer contactos e manter um diálogo intercultural e de tolerância recíproca, para lá da profícua, mas exclusivamente material, troca de ténues fios de seda» (p. 120).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

cyberjornal, 10 de Junho 2019

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