Catarina Ribeiro Pires – uma cascalense pelo mundo!

Em Venice (Los Angeles), com um dos murais de Vhils como fundo

0 Em Venice Los Angeles com um dos murais de Vhils como fundoEntrevista conduzida por José d’Encarnação

 

 

Uma conversa telefónica

De vez em quando, há uma surpresa! Não que seja o acaso a no-la proporcionar, mas porque a oportunidade surge e nós nos decidimos a agarrá-la!

Vidas há por toda a parte que merecem ser contadas, nomeadamente aquelas em que o espírito positivo e a vontade de ultrapassar barreiras à primeira vista intransponíveis podem constituir exemplo, numa altura em que – demasiadas vezes! – nos contam também histórias de quem espera pachorrentamente que o maná lhe caia do céu, que os currículos enviados em série sem sequer se ter uma ideia exacta do sítio para onde se mandam, porque o que interessa mesmo é mandar!... «Estou farto de mandar currículos para todo o lado e… nada!».

A surpresa para mim veio da conversa com uma amiga cascalense, que, também ela, muito tem logrado ultrapassar. Perguntei-lhe pela descendência, como é conversa habitual para os que já se encontram na curva descendente. E disse-me da Catarina, sua filha, nascida em Lisboa, mas cascalense desde sempre, uma… aventureira!

– Aventureira?

– Sim, imagina!

Em traços largos me contou. E eu decidi não deixar escapar a oportunidade e meti conversa com a Catarina, que dá agora pelo nome de Cata ou Cat e, para os colegas de trabalho, «Cat on set»!

Instantâneo de Brooklyn (Williamsburg), onde tem residência

0 instantâneo de Brooklyn Williamsburg onde tem residênciaVamos lá, Cat. Conta-me então como foi.

 

 

«Eu queria ser médica!»

– Pois eu o que queria era ser médica, porque ajudar os outros sempre me fascinou. Quando tinha 10 anos, comecei a jogar ténis. Começou como um hobby, mas rapidamente se tornou na minha vida. Durante 6 anos, joguei ténis de alta competição. Sempre fui boa aluna, mas o ténis era o que eu gostava de fazer. Passava todo o meu tempo nos courts; mesmo assim, consegui uma média altíssima, o que me permitiria entrar em Medicina; mas, na verdade, esse meu sonho de pequena estava a perder forma… Aos 16 anos, quando somos “obrigados” a escolher uma área, eu sabia que seria Saúde; mas, se não era Medicina, o que poderia ser? Fisioterapia foi a escolhida. Durante o meu percurso como atleta, passara muitas horas nos gabinetes de Fisioterapia por motivo de lesão; era um ambiente a que estava habituada e, assim, poderia ligar a Saúde ao Desporto. Formei-me, pois, em Fisioterapia, no ano de 2004, na Universidade Atlântica.

 

 

Entrevista para o documentario de uma amiga

0 Entrevista para o documentario de uma amigaO salto para… um mundo estonteante!

 Sentiste-te bem nessa área, satisfazias os teus dois objectivos: o ténis e a ajuda aos outros, onde, imagino eu, não apenas tratavas da parte física, mas também ensinavas que, para amparar o físico, o espírito, o dinamismo, o não esmorecer constituem uma terapêutica imprescindível. Estavas nas tuas sete quintas, como se costuma dizer…

– Sim, poderia estar, se eu não estivesse sempre a magicar novidades. E, de facto, passados alguns anos a trabalhar na área da Fisioterapia, decidi experimentar uma coisa completamente diferente: a Publicidade!

Publicidade?

– Sim, tem tudo a ver com a vontade de ir mais além, de promover…

E a oportunidade caiu do céu ou foste tu à procura dela?

– Ora aí é que começa a correria! Houve, outro dia, a maratona de Lisboa, não foi? Pois eu creio que, a partir do momento em que peguei no telefone, a corrida teve início, assim com um tiro de pistola, sabe como é!... Encantava-me o trabalho de produção. Imaginava a adrenalina de estar num set, o ‘fazer acontecer’, o stress sadio de noites sem dormir, a gravar…

Espera aí: essa ideia surgiu-te assim do nada?

– Propriamente não: eu já ensaiara algumas experiências a brincar, conhecia algumas pessoas dentro dessa área da publicidade, isso bailava-me na mente e apetecia-me tentar uma reviravolta de 360 graus.

Pegaste então no telefone e…

– Larguei tudo, fiquei mesmo sem trabalho e liguei para a Elisa de Paula: «Elisa, preciso que me dês uma oportunidade! Põe-me dentro de uma produção, arranja-me qualquer coisa. Não preciso que me pagues, não quero cachet, quero é aprender, quero dar tudo o que tenho cá dentro. Se gostarem, de mim, perfeito! Se não gostarem, agradeço-te o voto de confiança!».

E a Elisa proporcionou-te a oportunidade…

– Proporcionou. Estive dois dias integrada numa equipa, com pessoas que não conhecia, num ambiente de loucos, sempre com o nervosismo à flor da pele, mas com a certeza de que era mesmo aquilo que eu queria fazer nos próximos anos de vida.

Uma primeira experiência bem positiva, portanto!

– Sim, correu tudo bem e, desde esse dia, nunca mais parou! Já trabalhei durante muito tempo como assistente de produção (freelancer) nas melhores produtoras nacionais e com os melhores profissionais dentro da área, sempre (é curioso!) com o sentimento que saltava de produção em produção: o de «estar em casa!».

Corrias, porém, o risco de essa situação se manter, sem possibilidade de ires mais além!

– Um risco calculado, claro. O certo é que ganhei a confiança de alguns chefes de produção, que me começaram a dar ainda mais responsabilidades e a chamar-me para desempenhar cargos com maior visibilidade.

E o bichinho continuou a morder…

– Pudera! O bichinho pela área começava a crescer cada vez mais! Um dia, ao voltar de uma viagem aos Açores, estava eu ainda no aeroporto, toca o telemóvel: era o convite de uma produtora com quem eu nunca tinha trabalhado! Uma pergunta simples: ¿estás disponível para começar amanhã uma produção para uns americanos que vão estar em Portugal a filmar durante uns dias? Pensei em dizer que não, uma vez que estava a retornar do que me parecera o paraíso e já havia outra produção em vista…

Mas, aventureira como és, claro que aceitaste!

– No dia seguinte, pelas 8 horas da manhã, lá estava Cat on set! A equipa era muito grande, portugueses e americanos, numa produção um pouco diferente das que eu já houvera visto e trabalhado. Situação diferente e um «Ainda bem que aceitei!» sempre presente!

 

 

80 águas de coco frescas… já!

Uma vida também sempre diferente, Catarina, e, decerto, com muitas peripécias e casos a resolver urgentemente e à última hora.

– Eu conto. Um dia, ao filmarem no Elevador da Bica, em Lisboa, a produtora americana, que começara a fazer os pedidos mais estranhos, quis 80 águas de coco frescas! Dizer que, em pleno mês de Julho, com um calor intenso em Lisboa, à volta de 40 graus naquele Verão, é difícil satisfazer um pedido tão específico… é pouco! Não tinha tempo para pensar muito e, portanto, desatei a correr, só com um «como?» e um «onde?» na cabeça. Nisto – a sorte protege os audazes! – dou com uma loja que tinha expositor de sapatos orgânicos e outras tantas coisas vegan, biológicas. «Por acaso, não tem águas de coco?... 80?... Frescas?...». «Por acaso, tenho e estão frescas!». Assim contado, até parece simples estar no sítio certo à hora certa, parece fácil, mas deixa um rastilho de trabalho para trás! 80 águas frescas em dois sacos que achava que iam rebentar a qualquer segundo, e a uma velocidade-torpedo para voltar ao local de filmagens e entregar as ditas à produtora, Emilie Muller, a americana a quem chamavam de boss. Ela, muito curiosa, a olhar atentamente para os sacos, abre de seguida uma lata e solta um «Like it!».

Um alívio, claro!

– Pudera! Não imaginava que alguma vez pudesse vir a ser testada pela qualidade da água! Mas este «like it!» soube-me mesmo bem! Acontece, porém, que nem tempo tive para conseguir recuperar o fôlego da ‘maratona-águas-de-coco’! É que novo pedido exótico surgiu, debaixo de uma Lisboa merecedora de uma sombra: 50 barras de chocolate, com 90% de cacau, de sabores vários, à excepção de morango e baunilha!

Mais uma prova de força e nova ida à loja milagrosa, não?

– Exacto, porque eu já sabia que também tinha barras de chocolate. Dei comigo a pedir a todos os santinhos para que fossem de 90% cacau e... «jackpot!»: o senhor tinha tudo! Para mim, foi o herói do dia!!!!

 

 

E tem sido um correr mundo!…

Tudo se facilitou depois, como é natural.

– A partir desse dia, a produtora americana, a «boss» Emilie Muller, fez questão em que a presença de ‘Kate’ fosse mais assídua on set e o resultado dos dez dias de filmagens não me poderia ter surpreendido mais. Assim, comemorava-se num hotel o final das filmagens, quando, a dado momento, me chamaram para uma reunião, numa sala ao lado. As duas produtoras executivas americanas. «Tens o teu passaporte em dia? Gostávamos que continuasses a trabalhar connosco, mas terias que ir para Marrocos amanhã!

– E foste.

– Fui. Sem pensar muito e sem palavras que possam descrever o momento em que sentes a tua vida a mudar, com todas as células do corpo. No dia a seguir e no avião rumo a Marraqueche, era como se eu tivesse tirado o passaporte para o resto da aventura. Seguiram-se Los Angeles, Nova Iorque, Nova Orleães, Carolina do Norte, Madrid, Barcelona, Macau, Singapura, Tailândia, Hong Kong…

– E agora, que é feito de Catarina Ribeiro Pires, nascida oficialmente em Lisboa, mas nada e criada em Cascais?

– Cat ou, como me chamam quando estou lá fora, Cat on set, prepara uma produção que passará novamente pela Ásia, mas, desta vez, Bali e Tóquio são as cidades escolhidas, e prevê que a sua estada em Nova Iorque se prolongue por mais algum tempo. Neste momento, faço direcção de produção na cidade «que nunca dorme» e o meu sonho…

– Sim, continuas a sonhar?

– O meu sonho é voltar a Portugal, estar à frente de uma produtora internacional e conseguir aplicar as minhas convicções ambientais e sociais em todos os meus trabalhos. Acredito que podemos mudar o mundo e devemos fazê-lo em todas as valências da nossa vida.

 

 

 

 

cyberjornal, 22 março 2019

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