Evocando o Dr. Josias Gyll

JosiasGyllPor: José d’Encarnação

Outro dia, durante o almoço com um amigo comum, perguntei pelo Dr. Josias Gyll, que eu não via desde que, a 27 de Novembro de 2010, participara na abertura da exposição «Denominador Comum», promovida pelo Hotel Viva Marinha, para que expressamente haviam sido convidados artistas que, tendo embora em comum o gosto pelas artes e pela pintura em particular, eram, no entanto, profissionais de outras áreas. Josias Gyll aí expôs «Mãe», num forte azul surrealista, e a beleza dos monstros em «Axá»…

JosiasGyll1.png«Já faleceu», respondeu-me. Soube agora que o passamento se deu a 31 de Maio de 2015, ia fazer em breve 92 anos, mas nunca deixara de trabalhar. Aliás, a 1-10-2014, a Misericórdia de Lisboa, após afirmar que, para ele, a Medicina, mais do que uma profissão, era uma missão, referia-se assim à sua actividade:

«Aos 92 anos, o médico Josias Gyll continua a receber doentes de vários pontos do país, no seu consultório, em Cascais. Natural de Ílhavo, Aveiro, licenciou-se em Coimbra, em 1948, e seguiu um percurso no âmbito da medicina geral e familiar. Hoje, ocupa-se sobretudo da Geriatria, área vocacionada para a prevenção e tratamento das doenças dos mais velhos».

Muitos se recordarão em Cascais da sua figura: alto, invariavelmente vestindo de branco, completamente careca numa época em que eram raríssimos os que adoptavam esse modo de apresentação… Também privilegiava os carros brancos, nomeadamente um «2 cavalos» em que gostava de se deslocar.

Tive ocasião de privar com ele durante longos anos, praticamente desde que veio para Cascais. E, amiúde, além das consultas – foi o nosso médico durante muito tempo –, falávamos de Arte, porque, nas horas livres, à pintura se dedicava, quadros plenos de uma interioridade forte, agressivos até para que a Arte despertasse reflexão. Tenho bem presente, além do quadro que ilustra este texto e que é da minha colecção, um outro, que ofereci a um familiar: num deserto vasto e alaranjado, uma solitária pedra; por detrás, escrito na sua letra angulosa inconfundível, de caneta de feltro preta, a frase bíblica: «Quem de vós estiver sem pecado, que atire a primeira pedra!»

Emprestou-me, um dia, a tese de doutoramento policopiada de um biólogo que estudara o comportamento dos animais, numa época em que a Etologia dava os primeiríssimos passos e ambos nos interessávamos por isso. Não me ocorre agora o nome do cientista; lembro-me, porém, como se fosse hoje, do que Josias Gyll me disse:

– Leve, leia e não se coíba de sublinhar ou de escrever ao lado os seus comentários. Assim, quando eu voltar a ler o livro, não lerei apenas o que o autor escreveu, mas reflectirei sobre o que a si lhe pareceu digno de nota.

Nunca mais esqueci esta máxima!

Recordo bem as ‘guerras’ que Josias Gyll teve de travar com a Ordem dos Médicos, que o impedia de se apresentar como geriatra, porque essa especialidade, que ele tirara no estrangeiro, ainda não era reconhecida entre nós.

Prestou serviço no Posto das Caixas do Estoril, no âmbito atrás referido da Medicina Geral e Familiar; foi, durante muitos anos, quem se encarregou das autópsias no cemitério da Guia, pelo que se lhe poderia atribuir até a designação de «médico forense». Foram, todavia, sobretudo os problemas dos mais velhos que o interessaram e sobre eles não deixou, inclusive, de dar testemunho em textos que, por sugestão minha, chegou a redigir para o Jornal da Costa do Sol. Aliás, é essa vertente de geriatra que especialmente se frisa no citado texto da Misericórdia de Lisboa:

«De fato branco e sorridente, Josias Gyll aceitou o convite para estar presente no IV Congresso de Ortopedia Geriátrica realizado no passado dia 26 [Setembro de 2014], no Hospital de Sant'Ana, na Parede, pertencente à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. E participou do debate falando da importância do sol e da vitamina D no bem-estar das pessoas. "Não deixem de apanhar sol", receita.

O bem-estar é, aliás, o aspecto que mais procura cuidar nos doentes de idade avançada e entre os quais predominam os que sofrem de neuroses e de demências. Vêm de Braga, Barcelos, Santarém e até dos Açores para o consultar.

"Estou em disponibilidade permanente, mais para atender aos doentes, do que à doença", diz».

Completar-se-ão em breve 4 anos sobre a sua morte. Uma morte que (pesa-me!) me passou despercebida. E quiçá a muitos outros também. Creio, todavia, que a actividade do Dr. Josias Gyll em prol dos seus doentes e da comunidade não deveria ser esquecida em Cascais. Temos ruas com nomes de advogados e de médicos que, com a sua profissão, honraram esta vila. Josias Gyll também superiormente a honrou. Não deveria ser esquecido!

JosiasGyll3.png

cyberjornal, 7 março 2019

Para inserir um comentário você precisa estar cadastrado!