Garrett evocado no Museu dos Condes, em Cascais

TECGarrett19p6cyPor: José d’Encarnação

 

Temos, de novo, até ao próximo dia 17, no Museu dos Condes de Castro Guimarães, em Cascais, uma peça do Teatro Experimental de Cascais, em sessões de 5ª a sábado, a partir das 21.30 h. e aos domingos, a partir das 16. Encenação de Rodrigo Aleixo; figurinos de Fernando Alvarez; direcção de montagem de Manuel Amorim.

Uma incursão pelo género dramático por parte do escritor cascalense José Jorge Letria, que, sob o título «Ninguém é Garrett», evoca os últimos tempos do escritor Almeida Garrett.

 

 

 

 

 

 

 

TECGarrett19p2Boa a escolha do local, porque a acção se desenrola aquando Garrett muda para nova morada e o palácio dos Condes prestar-se-ia, de facto, a ser essa nova mansão. Por outro lado, assume o texto um carácter intimista, de mensagem garrettiana aos vindouros (veja-se o solilóquio muito bem interpretado por Luiz Rizo, numa das suas melhores actuações), e o facto de apenas haver, na Sala de Música, lugar para 30 espectadores faz com que a mensagem passe melhor.

Escreve o autor, na folha distribuída, que foi o seu precoce contacto com Garrett através da peça Frei Luís de Sousa que sempre o seduziu; por isso, aliás, terá feito um jogo de palavras no título, uma vez que «Ninguém» é o nome que a si mesmo dá o Romeiro, quando lhe perguntam «Romeiro, quem és tu?». Pode pensar-se, assim, que se dá a entender que esse «Ninguém» incarna o próprio Garrett; ou que, é escusado tentar, ninguém pode equiparar-se ao génio daquele escritor romântico.

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Um texto, até agora inédito, que prima pela simplicidade com que apresenta, pela voz de dois amigos – Gomes de Amorim (incarnado por João Pecegueiro) e Gonçalves (o actor Rodrigo Cachucho) – e também pelo testemunho de Alexandre Herculano (Sérgio Silva), essa fase final de uma vida em que também o amor (e o amor conturbado…) esteve presente (e Teresa Côrte-Real incarna bem a Viscondessa da Luz, Rosa de Montufar).

Não se diriam de mui fácil representação os diálogos entre os dois amigos, uma vez que são mesmo diálogos, ou seja, sem nada onde pôr as mãos. João Pecegueiro e Rodrigo Cachucho disso se desempenham, todavia, muito bem e não quero também deixar de referir que apreciei deveras o modo como representaram – não são fáceis esses papéis, embora pareçam – Beatriz Beja, a governanta Maria Adelaide, deveras eloquente nas expressões faciais – e o criado incarnado por Pedro Russo, que sabe acompanhar expressivamente o mero apagar ou acender de uma lâmpada…

Vale, pois, a pena dar uma saltada até ao Museu, na certeza de um serão bem agradável.

 

cyberjornal, 1 Março 2019

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