A Arqueologia no reino da Antárctida

(Fig.1)

SanTelmo

 

José d’Encarnação

 

O que resta de antigos naufrágios continua envolto em mui aliciante halo de mistério. Alvo dos caçadores de tesouros é, também, cada vez mais (felizmente!) tema a merecer a maior atenção por parte dos governos e dos investigadores. Dos governos, porque – ciosos dos achados nas suas águas territoriais – podem, pela adopção de leis adequadas, salvaguardar o seu património; dos investigadores, porque cada objecto recuperado detém sempre um mundo de informações histórico-culturais do maior alcance.

 

 

 

 

 

(Fig2. - Fauna, foto de Jason Auch)

SanTelmoA faunaCompreende-se, por isso, o interesse que despertaram na comunicação social os achados na foz do rio Tejo, não desprovidos de polémica, quer recente quer mesmo por ocasião da Expo’98, pois aí se expôs algum do espólio encontrado. Dedicada ao Mar, a Expo tinha, necessariamente, de mostrar algo desse nosso património.

Nesse âmbito se poderá enquadrar de pleno direito a Menção Especial atribuída, no quadro do Prémio de Arqueologia Eduardo da Cunha Serrão de 2018 (mui louvável iniciativa da Associação dos Arqueólogos Portugueses), à tese de doutoramento da autoria de José António Bettencourt, Os naufrágios da baía de Angra (Ilha Terceira, Açores): uma aproximação arqueológica aos navios ibéricos e ao porto de Angra nos séculos XVI e XVII. Mais uma forma, decerto, de chamar a atenção das entidades competentes não apenas para os invulgares testemunhos históricos sob as águas dos Açores mas também para essoutro espólio que, ao longo dos anos e sempre com muita dificuldade, o Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática foi tentando preservar.

(Fig.3 - Convivência entre os arqueólogos e os lobos marinhos)

SanTelmo lobos marinhosQuando responsável pelo Programa ERASMUS, tive ocasião de enviar estudantes para a Universidade de Zaragoza, a fim de se iniciarem nessas lides subaquáticas sob a égide da equipa do Professor Manuel Martín-Bueno, nessa altura pioneira nesse domínio da Arqueologia.

E se todas as áreas dos oceanos merecem – e têm, de um modo geral – a atenção dos investigadores, uma há que mui especialmente, pelas suas peculiares características, acicatou a curiosidade: a Antárctida! Esse imenso continente na sua maior parte coberto de gelo guarda ‘tesouros’, testemunho dessa secular curiosidade; e, por outro lado, o crescente degelo que está a sofrer, devido ao aumento do chamado ‘aquecimento global’ da Terra, traz para todos a maior preocupação. Não admira, pois, que haja equipas multidisciplinares (entre as quais se incluem investigadores portugueses) a estudá-la.

(Fig.4)

SCAROra, foi no seio da equipa de Martín-Bueno que se publicou, o ano passado, a tese de doutoramento de Elena Martín-Cancela intitulada Trás las Huellas del San Telmo – Contexto, Historia y Arqueología en la Antártida. Saído das Prensas de la Universidad de Zaragoza (ISBN 978-84-17358-23-5), é o volume 54 da série Monografias Arqueológicas. Fig. 1.

Diga-se, para já, que são quase 400 páginas em formato A4, ricas da mais variada informação, na medida em que, como se verá de imediato, não há somente o relato das (já longínquas, diríamos!...) campanhas arqueológicas de 1992-1993, 1993-1994 e 1994-1995, mas todo o necessário enquadramento dessa actividade – e esse é, desde logo, imprescindível manancial para a melhor compreender.

Uma panorâmica da obra ajudará a melhor se entender o que acabo de afirmar.

Trata o capítulo I do continente antárctico, o horizonte geográfico em que tudo vai desenrolar-se. As características físicas (os dias e as noites, o clima, a hidrografia…), a fauna aquática e terrestre (Fig. 2 e 3), os recursos naturais e… os «nativos antárcticos»! Como é? – perguntar-se-á – Nativos? Explica-se:

«Não existe uma população antárctica propriamente dita; o certo é que, ao longo dos anos, aí foram ocorrendo nascimentos», no seio das famílias de cientistas e de militares dos mais diversos países que aí se estabeleceram (p. 34).

Ainda nesse capítulo se dá conta do que foi acontecendo quanto à organização do território desde o Tratado de Tordesilhas (1494) até ao estabelecimento da prioridade científica, à criação do SCAR – Scientific Commitee on Antartic Research (Fig. 4) e às perspectivas que o ‘turismo antárctico’ abriu.

O interesse pela Antárctida não é de hoje. Importava, por conseguinte, contar o que foi acontecendo. Logo o astrónomo egípcio Ptolemeu deduzira, no século II da nossa era, «que, para o correcto equilíbrio geodinâmico, tinha de existir uma porção de terra no Sul do planeta» (p. 75). Houve, depois, a corrida pela «conquista do Pólo Sul» (Amundsen, 14 de Dezembro de 1911), as primeiras expedições e as descrições que delas sobreviveram, as rotas possíveis de oeste para este e vice-versa… Enfim, uma história da Antárctida, aqui bem documentada, nas p. 75-122, com fotografias antigas, cópia de manuscritos, quadro de datas mais significativas…

A história do navio San Telmo é contada no capítulo 3 (p. 123-199). Precedem-na, porém, as páginas que a enquadram: o que se sabe acerca da construção naval do século XVIII; as vicissitudes dos reinados de Carlos III e Carlos IV (1788-1808) – recorde-se que foi em 1805 que se deu a célebre batalha de Trafalgar (da França e Espanha contra o Reino Unido); as cinco fases cronológicas da construção de navios no decorrer do século XVIII; os nomes dos que, nesse domínio, fizeram história em Espanha; como eram os navios (e, aqui, naturalmente, às ilustrações se dá o maior relevo); e, finalmente, o que se sabe do navio San Telmo, até à sua última viagem: zarpara de Cádis a 11 de Maio de 1819 com destino ao Pacífico e, a 4 de Setembro de 1819, «ficou sozinho, abandonado à sua sorte no meio das águas que tantas vidas já antes haviam ceifado» (p. 194). Só, porém, a 27 de Dezembro de 1821, a mandado do Rei, se dá baixa oficial do navio e dos «homens que nele viajavam».

Aqui entra, pois, a Arqueologia, numa tentativa – parcialmente conseguida! – de se encontrar o que restaria do navio e do que se poderia, enfim, concluir, acerca do que efectivamente se passara. É o Projecto San Telmo, em que esta obra se integra. E o capítulo 4 (p. 201-223) versa precisamente sobre o que foram as campanhas levadas a cabo com essa finalidade, não sem, antes, se ter falado do nascimento da Arqueologia Subaquática e da sua aplicação na Antárctida.

Tem o capítulo 5 («A Constatação de uma teoria») dois subcapítulos em jeito de conclusões: ‘Reflexões sobre o cenário gelado’ e ‘O San Telmo e a sua tripulação como descobridores da Antárctida’.

Na verdade, os achados já feitos confirmam que o navio San Telmo, «já com avarias importantes e muito danificado após as tormentas que o haviam afastado do resto dos navios da Divisão do Mar do Sul, chegou às imediações da Ilha Livingston. Os tripulantes que porventura caíram à água nessas latitudes pereceram irremediavelmente, por congelação. Os demais, que lograram alcançar terra, porventura nalguma barca auxiliar, serviram-se dos poucos víveres que restavam a bordo». Pensa-se que poderão ter querido sair dali, mas as correntes, as águas geladas, as inúmeras ilhas e ilhotas à volta e, de modo especial, a falta de alimentos tê-los-ão feito sucumbir.

Vem na pág. 230, a preceder uma magnífica fotografia de pôr-do-sol, a conclusão deduzida de toda a investigação feita:

«Nos encontramos en disposición de asegurar que fueron los españoles los primeros en poner pie en la Antártida».

Por tal motivo, conclui Elena Martín-Cancela, «la gloria de su descubrimiento, a pesar de ser fortuito e involuntario, debería serles reconocida».

E este seu trabalho o apresenta como «humilde homenaje al San Telmo, a Rosendo Porlier, a Joaquín Toledo y a toda su tripulación». Porlier foi o brigadeiro e Toledo o capitão do navio.

Importa, contudo, voltar atrás, ao primeiro subcapítulo acerca do cenário gelado. Valerá a pena reler, a fim de melhor se compreenderem, diz a Autora, «as características destes projectos no seio do conceito global das Humanidades em que se inclui a História e, obviamente, a Arqueologia: estão muito longe de parecerem… humanos ou, pelo menos, não o são totalmente!» E explica (não resisto a não transcrever duas passagens, da p. 226):

– «Um bom cozinheiro e uma alimentação adequada, além de um lugar para dormir seco, são a chave para o bom funcionamento tanto humano como científico de uma campanha. O sono e o estômago são palavras-chave com que não se pode brincar».

– «Não há horários na Antárctida. Quando há bom tempo, trabalha-se; e não se trabalha quando o tempo o não permite».

– «Na Antárctida, todas as imagens, fotográficas ou não, são tiradas por todos nos mesmos dias: quando há sol e não há vento ou temporal. Daí as mensagens idílicas, falsos, de que ali ‘todo es coser y cantar’».

– E, por fim, a varinha mágica consignada no cartaz da base argentina Marambio, na península antárctica: «Não te espantes se queres ir; não te admires se tiveres vontade de voltar».

Um mundo, este, o da Antárctida; outro, não menos aliciante, o da Arqueologia Subaquática. E, naturalmente, o voto: que os governos, todos, mormente aqueles cujos territórios incluem plataformas marítimas, olhem para elas não exclusivamente do ponto de vista económico, mas tenham plena consciência da importância histórico-cultural que os seus fundos podem albergar e que ajam em consequência, apoiando devidamente as iniciativas científicas com vista à sua preservação, atendendo, até, a que, nos nossos dias, inclusive a vertente turística, desde que devidamente enquadrada, se está a alcandorar relevante.

A obra de Elena Martín-Cancela resulta, por conseguinte, deveras significativa no quadro dos muitos aspectos em que a investigação da Arqueologia Subaquática ora se movimenta, mostrando também quanto, em todos os quadrantes, as perspectivas multidisciplinares se afirmam imprescindíveis, com resultados de excelência.

 

 

 

 

cyberjornal, 4 Maio 2019

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