A história do Compasso ou o compasso da História ( 4 ) - Palácio Foz

Por: H.D.macon4a

O Palácio Foz foi a residência mais importante da baixa de Lisboa até aos finais do século XIX, sendo mandado construir em 1777 pelo 4.º Conde e 1.º Marquês de Castelo Melhor, D. José Vasconcelos Sousa Câmara Faro e Veiga, e pelo arquitecto italiano Francisco Xavier Fabri. O palácio foi posteriormente modificado tendo as obras só ficado concluídas em 1858, ano da sua inauguração, especialmentea  da sua capela consagrada a Nossa Senhora do Amor de Deus, situada na ala norte do edifício,,que era o mais rico templo privado da Lisboa de então, abrilhantado pelas decorações de Rambois e Cinatti.

Em 1889, na sequência das transações de terrenos e imóveis para a construção da estação dos caminhos de ferro, a 6.ª Marquesa de Castelo Melhor, D. Helena, vendeu o palácio ao grande proprietário e rico financeiro Tristão Guedes de Queirós Correia Castelo Branco, 2.º Conde e 1.º Marquês da Foz .

Após essa transação, o palácio foi alvo de grandes modificações, tanto internas quanto externas, tornando-se então a residência mais sumptuosa de Lisboa, situação que revelou-se efémera na medida em que o Marquês da Foz, devido à sua precária condição financeira, em 1901 foi obrigado a desfazer-se dos seus bens, num leilão que se  prolongou por dez dias sendo constante o desfile de carruagens de curiosos e compradores, tanto portugueses como estrangeiros, à porta da sua casa. Com isso, o palácio foi numa primeira fase alugado a Manuel José da Silva, proprietário do “Anuário Comercial”, e em 1908 estava hipotecado ao Crédito Predial, tendo dois anos depois sido adquirido pelo 1.º Conde de Sucena, empresário com negócios no Brasil, amante de Sintra e próximo do rei D. Carlos que lhe concedeu esse título em 1904). O Conde de Sucena arrendou o edifício para ocupações comerciais , sendo dessa época o Club Maxim´s, o Clube dos Restauradores, o Salão Foz, o Central Cinema, a Pastelaria Foz e o RestauranteAbadia. Como o 2.º Conde de Sucena, com nome igual ao do pai, José Rodrigues, também não conseguisse satisfazer os seus compromissos financeiros, os seus bens foram postos em leilão. Em 1939 ,a Caixa Geral de Depósitos, comprou em hasta pública o palácio, e em 1940 vendeu-o à Fazenda. Integrado no Património Nacional em 1944, o Palácio Foz recebeu grandes obras de beneficiamento. Em 1947 o Secretariado Nacional de Informação instalou-se nele, e depois a Direcção-Geral da Comunicação Social . Em Abril de 1917 foi inaugurado neste antigo palácio dos Castelo Melhor a Pastelaria Foz, propriedade da firma Leitão & C.ª, ocupando grande parte do andar térreo e sendo servida por três das cinco portas da fachada , que já não existem . A pastelaria comunicava com o Restaurante Abadia, inaugurado em 1916, instalado nas antigas cocheiras e arrecadações do palácio. Obra dominada pelo estilo misto de neogótico e neomanuelino, tudo ao gosto da Arte Nova característica da belle époque, que teve a intervenção do escultor José Neto macon4

Planta da Abadia.

Abadia pode ter sido uma tentativa de imitação em miniatura da própria Quinta da Regaleira, mas transpondo os seus símbolos para o plano maçónico . A planta tanto sugere a forma da swástika, como cruz solar ou evolucional, como a da chave, por certo a dos arcanos contidos neste espaço. A toda a volta da ombreira do Claustrum vêem-se cachos de videira, assinalando o espaço não só como o de apreciadores vínicos mas também, e sobretudo, como “Lugar de Sabedoria”, da mesma Gnose representada pela vida , e que deve ser o exemplo a imitar, e realizado pelo Mestre-Maçom, e o seu Grau ele é, o pálido reflexo. Na mesma contingência, podemos ver a escultura em corpo inteiro de um arquitecto medieval evocativo da primitiva Maçonaria Operativa , com barrete frígio, que suporta uma coluna em esquadria tendo no cimo duas cabeças de elefantes com as trombas enlaçadas. Representa o Grão-Arquitecto, Arche-Tekton, em grego , do Templo da Virtude e da Sabedoria .

No lado oposto da mesma parede, esquinando ou em quina, no sentido nordeste, observa-se um pombal tendo adiante quatro pombas dispostas em cruz. Elas suportam o pombal como quinto elemento do conjunto, e sendo as aves simbólicas da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade o pombal vem representar a Casa do Divino Espírito Santo, o que remete para a ideia do V Império Lusitano como tema já assumido por alguns maçónicos .

macon4bA mulher-dragão , simboliza o valor da inteligência artística e na mitologia greco-romana domina os céus, é a razão porque sua figura está suspensa no ar. Sem esqueçer o poço que segundo algumas histórias , ligavam este local ao Rossio. Histórias …

A aparência de mosteiro desta espécie de cripta decorada vai bem com o nome que lhe impuseram, Abadia. Não foi intenção fazer um restaurante privado para uma classe abastada da cidade, mas foi  pretenção criar nele um tipo de mensagem velada à posteridade, atendendo à sua decoração com forte simbolismo hermético e às próprias filiações esotéricas, nomeadamente maçónicas, dos seus intervenientes.

macon4cAinda reinava D. Luís I, o Clube dos Makavenkos foi fundado em 1884 por 13 sócios , rapidamente chegou a ter mais de 100 filiados , cuja principal ocupação aparente não passaria da comensal e boémia: o prazer da boa mesa, da “alegre rapioqueira” e a compensação dos “pecados” com actos de benemerência. Ficou famoso o makavenko Santos Joya, que exercia “extraordinário poder magnético sobre as mulheres, convidando-as às dezenas para os jantares”, e por essa razão já merecera “as honras dum festim à romana e respectiva coroa de louros, para se lhe exaltar as suas qualidades de macho”. Quando ele não aparecia, faltavam “damas e melhores exemplares da raça luso-espanhola” que “abrilhantassem a encantadora festa, porque as flores animadas são sempre bem cabidas e apreciadas”. Foi o próprio Francisco Grandella quem fundou o clube, e o seu presidente honorário, depois de 1898, foi Ferreira do Amaral, e após a sua morte o cargo foi ocupado pelo dr. Azevedo Neves.

Em Lisboa, quando começaram , inicialmente as reuniões em Santa Isabel, no palacete do Conde das Antas, no quintal onde se achavam vários animais, denominado Parque Zoológico, até que Francisco Grandella comprou o terreno do velho Teatro Condes e mandou reconstruir este em 1888, reservando a cave para implantar a sede makavenkal. Apesar de levemente ligada à dramaturgia, não obstante a cave do Condes vulgarmente enchia-se de autores, actores e actrizes para jantares, festas e banquetes, tendo passado por ele uma boa parte da alta sociedade e da intelectualidade masculina da Lisboa de então, sobretudo nobres com títulos de fancaria comprados a outros titulares arruinados. Os “trabalhos revolucionários” – como se lia nas convocatórias escritas pelo punho do advogado dos makavenkos e Grão-Mestre adjunto da Maçonaria, José de Castro – nunca deviam ser realizados numa sexta-feira, dia reservado às makavenkadas, nem tampouco às terças, em que as noites talvez estivessem ocupadas pela Academia Real dos Camelos, uma subdivisão do clube presidida pelo ex-padre e republicano João Bonança, transformando-se a cave do Condes a preceito, com panos de Arraz a tapar as paredes, e nos lambrins desenhos alusivos a caravanas no deserto, para que os discursos pós-refeição estivessem bem enquadrados. As atitudes boémias e boçais desse clube traziam a sociedade conservadora lisboeta, católica e monárquica, engrossada pelo Dr. António Augusto Carvalho Monteiro, chocada em estado constante de escândalo, e desapoiou as iniciativas sociais dos makavenkos .Estes não eram tão inocentes nos seus propósitos como aparentavam: andavam de ligações à Maçonaria e à Carbonária, aliás, a bandeira verde e vermelha do Clube dos Makavenkos era a mesma da Carbonária Portuguesa. Ao fim de 26 anos de existência o clube quebrou uma das suas regras, ou quase de certeza nunca a terá cumprido: não se imiscuir em política e religião. Com efeito, neste local , conspirou-se a realização da revolução de 5 de Outubro de 1910. Nessa cave do Teatro Condes, reuniram-se os republicanos e maçons Francisco de Almeida Grandella, José António Simões Raposo, José Cordeiro Júnior, José de Castro, Machado dos Santos e Miguel Bombarda, conspirando contra a Monarquia e o rei D. Carlos. No Condes arquitectou-se a destruição da Monarquia e a implantação da República, e na Abadia ter-se-á planeado a fundação de uma sociedade ideal, utópica mas possível de realizar. Contudo, após feita a sementeira revolucionária teve-se a colheita a condizer: a ruína do Marquês da Foz e do Conde de Sucena, a falência de Francisco Grandella acompanhando a do Teatro Condes e a do Restaurante Abadia que fechou portas até hoje.

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Sob a aparência do convívio comensal, assim mesmo ocultando o sentido último do ágape ou “ceia ritual”, na realidade a Abadia terá servido como lugar discreto de encontros maçónicos para discutir assuntos afins à Ordem e ao País. Ela estaria reservada às tertúlias de Mestres e Mestras da Maçonaria, talvez dos Sublimes Mestres Eleitos dos vários Ritos, masculinos e femininos, como se denota no “testamento simbológico” que decora o espaço.

 

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cyberjornal, 28 de dezembro 2016

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