Camilo em São Domingos de Rana

Camilojulho18cyber12Até 27 de julho os admiradores de Camilo de Oliveira podem matar saudades e recordar a sua brilhante e longa carreira, visitando a mostra patente no Salão Nobre da Junta de Freguesia de São Domingos de Rana, "Camilo de Oliveira, por toda a minha vida".

A mostra foi inaugurada no fim da tarde da passada segunda-feira numa cerimónia que reuniu autarcas desta freguesia, com destaque para a sua presidente, Fernanda Gonçalves e familiares, amigos e colegas do reputado artista, entre os quais, a viúva, Paula Marcelo, o seu biógrafo, Ricardo Mesquita de Oliveira, os atores Luis Mascarenhas e Io Apoloni, José Carlos Malato, João Caçador e muitos outros.

Camilojulho18cyberNa ocasião, Paula Marcelo manifestou a sua satisfação por esta homenagem. «Sei que, onde quer que esteja, o Camilo está muito feliz por ver o seu desejo cumprido, de saber que o seu público, que tanto o estimou e acarinhou ao longo de quase 85 anos de carreira, continua a não o esquecer».

Sublinhando que a iniciativa da Junta de Freguesia marca o 2.º aniversário do falecimento do actor e também o seu 94º. aniversário (23 de Julho 1924 - 2 de julho de 2016), agradeceu à autarquia «todas as iniciativas que tem levado a cabo em prol de prestígio e reconhecimento do nome e da carreira de Camilo de Oliveira», recordando ainda o facto de ter sido atribuído o seu nome a uma rua da freguesia, assim como uma medalha de mérito cultural.

Aproveitou ainda para agradecer a Ricardo Mesquita de Oliveira, que juntamente com a Junta de Freguesia organizou a exposição, «por todo o amor que, ao longo da sua vida, tem dedicado a Camilo de Oliveira» e a todos os presentes por «manterem o Camilo vivo nas nossas memórias».

A abrir a cerimónia Fernanda Gonçalves afirmou ter sido com muito gosto que abraçou a proposta de Ricardo Mesquita de Oliveira para a organização daquela exposição, até porque «fazia todo o sentido relembrar esta figura ímpar da cultura portuguesa, Camilo de Oliveira, enquanto vizinho e amigo desta autarquia».

Sobre o homenageado, a presidente relembrou: «Ator, encenador e argumentista, Camilo de Oliveira foi um ícone da cultura e do entretenimento, que procurou satirizar também a vida urbana e política com a apresentação de divertidas comédias e revistas, que foram sucessos por longos anos e continuam bem vivas na memória de todos nós.

Como ator era exímio, carismático e um dos melhores do teatro português. Como pessoa e vizinho desta junta de freguesia será lembrado pela sua simpatia, pela afabilidade, pelo sorriso pronto e pelo seu positivismo. Não podíamos deixar de participar nesta singela homenagem ao homem e ator, cujo riquíssimo legado nos deixou em cada peça e obra encenada. Pelas gargalhadas que nos fez soltar, Camilo de Oliveira prevalecerá nas nossas mentes para sempre, com muitas saudades!»

Ricardo Mesquita de Oliveira utilizou o discurso directo para recordar uma longa amizade. «Dentro de mim, comandava o sonho de escrever um livro, enquanto forma de lhe prestar toda a minha enorme admiração, um ato de amor. Nunca pensei na exposição, ideia que nasceu este ano para evocar os meus 15 anos de pesquisa, de amor e admiração, evocando também a passagem do 2.º ano de falecimento e o seu 94.º aniversário. Fi-lo com o mesmo respeito com que ele baseou toda a sua carreira, em prol de um público fiel. Espero que o público receba tão bem esta exposição, como recebeu o Camilo no teatro e na televisão ao longo de 85 anos de carreira».

A encerrar, Luís Mascarenhas recordou que foi com Camilo que se estreou em Revista, no Teatro Monumental, há 50 anos. A partir daí as suas carreiras entrecuzaram-se muitas vezes e a amizade cresceu.

Camilojulho18 cyber19«Camilo Venâncio de Oliveira subiu ao palco pela primeira vez aos cinco anos com a Companhia Rentini, propriedade da sua avó, Julieta Rentini. Aos 15 anos, estreia-se profissionalmente com a peça “Amor de Perdição” nesta companhia itinerante, com a qual percorreu o país de lés-a-lés, adquirindo a experiência que lhe valeria uma carreira de sucesso.

Em 1951 apresenta-se pela primeira vez num palco de Lisboa, no Coliseu, com a Revista “Lisboa é Coisa Boa”. Os críticos foram unânimes ao anunciá-lo como “a nova revelação cómica” e “um cómico à altura”.

É pela primeira vez cabeça de cartaz, em 1954, na revista “Viva o Homem”, no Teatro Avenida, onde atuou ao lado de 50 mulheres, sendo ele o único homem em cena.

Não há palavras, nem adjetivos para descrever a carreira deste ator ímpar do nosso teatro e figura incontornável da nossa televisão. Com uma carreira de 85 anos, não há geração que não tenha vivido momentos de alegria ao ver a performance de Camilo.

Com a sua arte de fazer rir, o “Ator do Povo” conquistou o público. Procurou nunca desiludir os seus admiradores, que o brindaram sempre com demonstrações de respeito, admiração e carinho.

Nos anos 60, 70 e 80, esgotavam-se as duas sessões diárias e as três aos fins-de-semana. As personagens que interpretou em inúmeras revistas, dramas, farsas e comédias destacaram-no como um dos grandes atores de composição. Somou êxitos dando vida a “Bocage”, “Marquês de Pombal”, “Ramalho Eanes” e até a um simples “Mendigo”, graças à sua genialidade de mestre.

Entregou-se a todas as personagens cómicas com o mesmo empenho, fazendo rir multidões. Desde os tempos áureos do Parque Mayer até aos gloriosos anos do Teatro Monumental, passando pelas salas mais longínquas deste país, arrastava o público por onde quer que passasse com os seus espetáculos.

No final de cada atuação, os fãs que tinham acabado de assistir ao vivo e a cores à performance de Camilo não arredavam pé da “porta dos artistas” para lhe agradecer pessoalmente os momentos de alegria que este lhes tinha proporcionado. Uns aplaudiam-no de perto, outros pediam-lhe o tão desejado autógrafo e a fotografia da praxe com o ídolo.

A televisão permitiu a Camilo de Oliveira atingir um grau de popularidade só até ali alcançado por Vasco Santana, António Silva, Laura Alves e outros grandes nomes da época de ouro do teatro e do cinema português.

A sua carreira encontrava-se em plena ascensão. Crescia a sua popularidade junto do público e era agora o ator mais bem pago no teatro de revista, sendo disputado por todas as companhias. Faziam-se longas filas para comprar bilhetes para os seus espectáculos, que esgotavam com antecedência. 

Durante 40 anos consecutivos foi primeiríssima figura do teatro. Não admitia faltas de respeito para com o seu público, não permitindo o uso do palavrão em cena, nem falta de qualidade nos seus espectáculos. Quer estivesse em cena muito ou pouco tempo, para si todas as sessões eram dias de estreia. Para Camilo de Oliveira o mais importante era o “público, público e público” e foi com base nesta entrega que o seu público nunca o abandonou, acarinhando-o em todos os momentos da sua carreira.

Nas décadas de 80 e 90, o ator atingiu o pico da sua popularidade. Os mais velhos recordavam-no do teatro e os mais novos rendiam-se às personagens que interpretava na televisão, como “Agostinho”, “Padre Pimentinha” e “Zé Lusitano”, entre tantas outras. As gerações encontravam-se agora presas ao grande ecrã a ver os programas de grande sucesso, primeiro na RTP, como “Sabadabadu” e “Allegro”, e mais tarde na SIC, onde regressou com “Camilo & Filho, Lda” e terminou com “Camilo, o Presidente”.

Ficarão para sempre os bordões que Portugal inteiro repetia diariamente, como “isto é que vai uma crise”, “a vida está difícil… psss” e “lá fora está-se pior, tá-se, tá-se”.

Dizem que Camilo de Oliveira morreu a 2 de Julho de 2016, dizem… » (*)

 

 

 

(*) Texto do desdobrável que acompanha a exposição

 

 

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JFSDR/cyberjornal, 4 julho 2018

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