Paula Rego - Histórias & Segredos

PaulaRegofilm017MScyPepita Tristão (texto)

Mário Sérgio (fotos)

 

 

Paula Rego - Histórias & Segredos é o título do filme sobre uma das maiores artistas plásticas portuguesas e, na actualidade, a mais reconhecida internacionalmente, que o seu filho, Nick Willing, realizou e pode ser visto em diversas salas de cinema do País.

 

 

PaulaRegofilmePaulaRegofilme17cyNo passado sábado, a película foi apresentada em Cascais, na Casa das Histórias Paula Rego (CHPR), cujo Auditório foi completamente lotado por pessoas esperançadas em ficarem a conhecer melhor a vida e obra da artista.

Terminado o visionamento, muito aplaudido, o realizador e a assistente e modelo de Paula Rego, Lila, disponibilizaram-se a responder às questões formuladas pelos espectadores, curiosos de mais pormenores sobre a mulher, mãe e artista em foco.

Curiosamente, segundo as próprias confissões, confirmadas pelo testemunho dos filhos, no caso de Paula Rego a mulher e mãe são indissociáveis da artista e da sua obra.

Tendo nascido numa sociedade profundamente conservadora e repressiva para as mulheres, desde a mais tenra infância que se refugiou nos seus desenhos. Primeiro para encontrar um ponto de ligação com a própria mãe, com quem mantinha um relacionamento mais distante e frio, mas que desenhava e pintava muito bem. Depois, como forma de expressão e de exorcizar inquietações e medos.

Já a sua ligação com o progenitor era de grande proximidade, pois tendo aquele uma mente mais aberta, sempre a apoiou, mesmo quando decidiu, ainda bastante jovem, ingressar numa escola de arte, em Londres.

Apesar de fora do País, Paula Rego viveu sempre espartilhada pelas ideias conservadoras de parte da família e amigos, que continuavam em Portugal, e também pela dureza da vida de uma jovem do sexo feminino que tentava sozinha, vingar num universos onde os protagonistas eram maioritariamente homens. Se mesmo em Londres, uma artista plástica tinha dificuldade em ser reconhecida entre os seus pares do sexo oposto, certo é que talvez fosse a sua rebeldia contra o mundo hostil, onde vivia que potenciou a força transmitida pelas suas obras. Nelas se reflectem terrores, paixões, mas também outros sentimentos e a sua militancia, num século de todas as mudanças para a condição feminina.

PaulaRegoquadros

 

Exposição

A par com a estreia deste filme, a Casa Das Histórias Paula Rego inaugurou, no passado dia 7, uma exposição com o mesmo nome, que tem como curadores o próprio filho da artista, Nick Willing e Catarina Alfaro e ficará patente até 17 setembro 2017

Na folha de apresentação, Catarina Alfaro, Coordenadora da Programação e Conservação da CHPR, escreveu:

A exposição agora apresentada parte assumidamente do registo íntimo e pessoal explorado no filme do realizador britânico Nick Willing sobre Paula Rego, sua mãe. É, por isso, uma exposição de caráter biográfico e que introduz a espacialização das memórias e referências identitárias da artista. Mas nem por um imperativo de rigor biográfico a exposição segue sempre uma ordem cronológica e, por vezes, o sucessivo dá lugar ao simultâneo, pois é a partir da reflexão sobre as experiências vividas que o pensamento artístico de Paula Rego se constrói, sendo a sua vida e a sua obra realidades inseparáveis. Ao longo das oito salas de exposição recuamos aos tempos de infância e à sua aprendizagem artística na Slade School of Fine Art (Londres), de 1952 a 1956, apresentando-se fotografias, cartas, livros que pertencem desde a infância a Paula Rego e até uma pequena pintura da sua mãe. Todos estes elementos revelam um genuíno e precoce interesse pela prática artística, também incentivado no seio familiar, e remontam na sua maioria a uma fase anterior à sua formação artística formal. Uma série de objetos pessoais são testemunhos do ambiente familiar e privado que é permanentemente evocado na produção da artista. Aqui se incluem livros da sua infância que se tornaram referências essenciais para o desenvolvimento das suas narrativas figurativas, documentos fotográficos e fílmicos, bem como obras da sua coleção particular. São as memórias da infância passada em família, as recordações das idas à pesca no Cabo da Roca com o seu pai, que a artista recupera no tríptico de 2005, intitulado O pescador. Embora não estivesse ciente deste processo de rememoração no momento de execução da pintura, Paula Rego reconstruiu várias imagens que estavam fixadas no seu inconsciente: “O pescador é o meu pai”. Para além do enquadramento familiar, favorável ao desenvolvimento da sua formação artística, Paula Rego contou ainda com a cumplicidade de Victor Willing durante os anos em que viveram e trabalharam juntos. Admirado pelos seus colegas da Slade, Willing rapidamente se afirmou como “porta-voz da sua geração”, como testemunhou o crítico David Sylvester. A sua genialidade e personalidade carismática encantaram-na imediatamente. A aproximação entre ambos estabelece-se, também, por uma mútua e profunda admiração artística. Na verdade, Victor foi, segundo Paula, a pessoa que melhor Paula Rego, Dez (Da série Depressão), 2007 Paula Rego Histórias & Segredos Curadoria: Nick Willing e Catarina Alfaro Com o apoio de: Leonor de Oliveira 7 abril a 17 setembro 2017 Percurso Expositivo Planta do edifício Piso térreo Paula Rego, Histórias & Segredos Entrada Loja Auditório Cafetaria Receção Sala 1 Sala 0 Sala 2 Sala 3 Sala 7 Sala 6 Sala 5 Sala 4 Av. República, 300, 2750-475 Cascais/ tel. +351 214 826 970/ www.casadashistoriaspaularego.com compreendeu o seu trabalho e isso uniu-os definitivamente: “Era a pessoa que conhecia o meu trabalho melhor do que qualquer outra pessoa no mundo. Bastava-lhe olhar para o meu trabalho e sabia o que eu queria dizer, e não há nada mais especial do que isso. Quando alguém compreende bem o nosso trabalho, essa pessoa compreende-nos bem a nós”. Para além de algumas das suas obras mais marcantes — como O pescador, O crime do Padre Amaro, a série Mulher cão ou a série sobre o aborto — e outras nunca antes vistas publicamente que pertencem à sua coleção particular, nomeadamente o retrato do seu pai datado de 1954–55 e a obra Descida da Cruz, de 2002, é apresentada pela primeira vez em Portugal a série Depressão. Estas poderosas imagens permaneceram escondidas durante dez anos e exploram a dimensão paradoxal da depressão psicológica. É, por essa razão, um segredo que agora é revelado mas que gerou durante muito tempo um sentimento de vergonha: “Deveriam ser postas numa gaveta para nunca mais serem vistas, porque eu sentia vergonha de estar tão deprimida”. O poder evocativo destas imagens e a intensidade com que revelam a complexidade desta doença são tão reais porque se ligam diretamente à interioridade da artista, que experienciou, ao longo da sua vida, vários estados depressivos. Mas a sua força reside sobretudo no facto de ter depositado nestas imagens a esperança para encontrar o caminho de saída. É precisamente este gesto de entrega, este vínculo essencial entre a arte e a vida, que melhor traduz, desde sempre, o significado da sua obra: “É preciso confiar na pintura porque ela é que nos diz o que está dentro de nós e isso nem sempre é agradável. É descobrir quem somos”. Nesta exposição reconstitui-se, pela primeira vez, o estúdio de Paula Rego através de diversos elementos, como cenários, modelos e figurinos utilizados pela artista. No estúdio, Paula constrói o seu mundo de fantasia e encantamento, colocando nas suas pinturas aquilo que não é capaz de dizer, conferindo-lhes, assim, um poder mágico e revelador. »

 

 

 

 

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cyberjornal, 9 abril 2017

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