Saga da Santidade de D. Afonso Henriques, de Abel de Lacerda Botelho, Américo A. Ferreira, Barroso da Fonte, Narciso Machado

AfonsoHenriquessantiddePor: Maria Helena Ventura

Há pérolas guardadas nas dobras do Tempo que um dia a luz do dia recupera, porque nem a erosão causada pelos interesses esconsos consegue apagar o brilho daquilo que tem valor. Tal é o caso de Apparatus Historicus de Argumentis Sanctitatis Regis Alfonsi Henrici - um trabalho de 220 páginas escritas em latim clássico, da autoria do teólogo vimaranense José Pinto Pereira, impresso em Roma em 1728.

 

 

A tese de doutoramento pretendia demonstrar, em dez pontos essenciais ou dez indícios de santidade vulgarmente atribuídos a D. Afonso Henriques, que o nosso primeiro rei merecia ser considerado pio, beato e santo. O trabalho chegava à hierarquia da Santa Sé para ser analisado e recolher pareceres e mais tarde seria oferecido ao papa Benedito XIII, que morreria em 1730, e ao rei de Portugal D. João V.

Nenhuma das entidades eclesiásticas que analisava a obra encontrava motivos que atentassem contra “a fé e os bons costumes”, pelo que o parecer só podia encaminhar-se no sentido de que se imprimisse. De facto a obra era impressa, mas não tinha autorização para circular, o que não deixava de ser estranho, ou talvez nem tanto, já que as relações entre o reino de Portugal e a Santa Sé ficariam cortadas entre 1728-1732. Mas era evidente que o simples acto da impressão seria sempre uma porta aberta para a circulação, ainda que restrita.

O processo de beatificação, que antecederia o da canonização, ficava suspenso por motivos pouco esclarecidos que teriam a ver com as conjunturas política e religiosa, mas pior do que isso, durante quase trezentos anos o trabalho continuava interdito ao grande público. Segundo informação do investigador J. Pinharanda Gomes ao coordenador de Saga da Santidade de D. Afonso Henriques, Doutor Barroso da Fonte, de quem falaremos a seguir a propósito desse título, uma cópia do pergaminho existia na Torre do Tombo. E, no entanto, nenhum historiador a recuperava do anonimato ou se debruçava sobre um tema tão específico que podia ter desencadeado nova sucessão de trabalhos de investigação sobre uma personagem tão importante da História Medieval. O autor do Apparatus, teólogo, cavaleiro da Ordem de Cristo e fidalgo da casa real, não era um desconhecido, tinha um nome prestigiado e alguns títulos publicados antes de partir para Roma. E apelava a D. João V para que desse atenção ao assunto.

Passavam quase três séculos de silêncio. Só a 24 de Junho de 2014, dia da batalha de S. Mamede, uma síntese da obra seria trazida a público por Américo Augusto Ferreira num português escorreito e numa nobre tentativa de chamar a atenção da comunidade de historiadores portugueses para um trabalho tão importante. Era uma edição de 500 exemplares com dois valiosos contributos de Pedro Vilas Boas Tavares e Armando da Silva Pinheiro, subordinados ao tema Milagres da memória e mitologia nacional.

Quem nos fornece todas estas informações logo no Intróito do recente título Saga da Santidade de D. Afonso Henriques, é o Doutor Barroso da Fonte, escritor, jornalista, historiador, grande admirador do nosso primeiro rei e notável estudioso de tudo quanto lhe diz respeito. Numa edição de 2017 promovida pela Fundação Lusíada e em coautoria com Abel de Lacerda Botelho, Américo A. Ferreira e Narciso Machado, começa por nos introduzir no tema antecipando o feliz resultado da exaustiva reunião de informação e recolha de argumentos que ajudam a contextualizar a origem do Apparatus de José Pinto Pereira.

A Saga da Santidade de D. Afonso Henriques é um trabalho literário de inegável pendor científico, muito bem estruturado, num discurso acessível, com profusa e esclarecedora documentação. Merece ser conhecido do grande público, mormente de toda a comunidade de historiadores. Primeiro porque envolto no propósito nobre de recuperar das brumas um documento do século XVIII que pode considerar-se um achado. Depois porque reitera a ideia de que estudos quase inéditos, como Apparatus Historicus, só podem enriquecer a Historiografia portuguesa. Não é tão importante avaliar a emergência de Afonso Henriques ao patamar da santidade, esforço que colheria sempre argumentos contra e a favor, como aceitar que a Ciência, sendo aberta, deve promover o acolhimento a tudo quanto se produz com honestidade e rigor. O livre escrutínio compete aos actuais e aos futuros cientistas.

Vale, por isso, a pena conhecer o conteúdo de Apparatus Historicus através da leitura de Saga da Santidade de D. Afonso Henriques, título que deverá ser encomendado numa loja FNAC e que saiu como Volume V da Colecção “Documentos” da Fundação Lusíada, rematando de forma perfeita o tema do IV Volume A Cristofania de Ourique, Mito e Profecia, da autoria de Manuel J. Gandra.

 

 

cyberjornal, 14 Março 2018

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