"Lua Nova", livro de estreia de Ana Thomaz de Oliveira

LuanalivrocyPor: Pepita Tristão

Há bastante tempo que a conhecíamos por Luana. Cruzámo-nos com ela noutros caminhos que não os das letras, e nada nos levava a adivinhar a poetisa escondida atrás da jovem estudante, bem cedo lançada no mercado laboral e, mais tarde, da mãe solteira e dedicada do pequeno David.

Há poucos dias fomos surpreendidos com a notícia de que ia apresentar um livro de poesia. Intitulada Lua Nova e com uma capa muito apelativa, a obra era assinada sob o pseudónimo Ana Thomaz de Oliveira.

Falamos com a autora, num café perto do local onde reside, e pudemos apreciar alguns dos seus deliciosos poemas, que nos revelaram uma jovem sensível e culta, por detrás da mulher determinada e lutadora.

 

 

 

Encontrámo-la entusiasmada por ver concretizar-se um dos seus sonhos, embora preocupada com o aproximar da apresentação, cuja data ainda não está agendada, mas deverá ser em breve.

Quisemos saber desde quando a poesia entrou na sua vida.

luanacy- A poesia, no fundo, sempre esteve lá. A partir do momento em que me foi proporcionado aprender a ler e escrever, também me foi transmitido o gosto pela escrita, muito em particular, pela poesia. Curiosamente, nunca sou eu a procurá-la, é sempre ela a encontrar-me! Ainda hoje...

Quais os seus poetas de referência?

Dentro da família, tenho a minha mãe e o meu tio Xanon Braga. Mas a minha escritora preferida é a Sophia de Mello Breyner. Eu estava fora quando ela faleceu. Fiquei triste por não ter tido o privilégio de a conhecer. Também admiro Fernando Pessoa e, claro, Neruda.

Algum deles influenciou a sua forma de escrever?

Como alguém que ama escrever, acredito que todos eles, à sua maneira, plantaram algo em mim. Mas desde muito cedo adquiri um estilo rebelde, digamos: não me prendo a métricas, rimas, estruturas pré-programadas. Por vezes, já dei por mim a dizer 'quero escrever um soneto' e a fazê-lo. Mas, por norma, apenas deixo a inspiração correr... Também não sei se tenho um estilo definido. Mas quando me leio, reconheço aquilo que queria dizer e isso dá-me paz.

Embora nascida em Lisboa, Luana é descendente de emigrantes cabo-verdianos. Filha de pais separados, teve como pai de criação, um inglês.

Isso leva-nos a perguntar se, sendo fruto de diversas culturas, considera que essa multiculturalidade se reflecte na sua escrita.

(Não hesitou)

Oh, sem dúvida!... Escrevo em português maioritariamente, mas claro que tenho poemas em inglês, alguns em crioulo e às vezes uma ou outra língua também fazem uma visita à minha caneta.

Em casa, tive educadores de Inglaterra e Cabo Verde, não esquecendo a natural influência lusa e a abertura que tive para outras línguas, como o espanhol ou o francês, até mesmo o alemão, que tentei aprender sem sucesso. Isso facilitou-me o conhecimento de muitos poetas, lendo as suas obras nos idiomas de origem. Acabei por perceber que a poesia pode ser tão mais universal, quanto mais pessoal for... Quanto mais natural for.

Conhecemo-la por Luana. No Facebook é Loulou Bragga e o seu livro é assinado por Ana Thomaz de Oliveira. Qual a razão de tantos heterónimos. Quem é mesmo a Luana?

(Risos)

Isso é algo que ainda me pergunto a mim mesma todos os dias. Já fui Luísa Ana no assento de nascimento e o meu pseudónimo inicial era Tamina Ananda. Mas sempre me senti insatisfeita com o meu nome e sempre sofri de uma grande angústia existencial. Respondendo à sua pergunta, Luana é quem sempre fui, a Loulou é uma homenagem à minha mãe (sou muito do que sou devido a ela); é o nome com que me tratava na infância. E a Ana Thomaz de Oliveira é um apanhado de todos os meus eus. Ela é quem eu quero e sempre quis ser e também tem estes apelidos em homenagem aos meus pais (biológico e de criação) que, infelizmente, já partiram.

Já experimentou outros géneros de escrita?

Já tentei aventurar-me em pequenos contos. E, pela segunda vez, tentei escrever uma autobiografia.

Também ensaiei duas histórias infantis, uma das quais escrita a meias com o meu filho.

No entanto, o estilo em que me sinto mais à-vontade a escrever, aquele que me permite exprimir melhor os meus sentimentos, é mesmo a poesia.

É demais conhecida a dificuldade de editar poesia. Sentiu isso?

Sim. Senti...

(Suspirou, mas logo prosseguiu com entusiasmo)

Não na Emporium Editora, que desde o início me aceitou a mim e ao 'Lua Nova' de braços abertos. Mas, durante muitos anos, o desejo de publicar ficou adiado por isso mesmo. Depois, pensei que se eu aprecio poesia, outras pessoas também devem apreciar e que no mercado literário há espaço para um número infinito de estilos.

A poesia é lida. E, sim, vende. Mais facilmente no formato canção, claro. No entanto, creio que se houver qualidade na oferta, essa 'dificuldade' em vender a poesia diminui.

Lua Nova” já está publicado. Há outro livro na forja?

Já os tenho em gaveta, claro. Em termos de poesia, a complexidade aumenta de livro para livro. Mas o bichinho por escrever mais, visita-me de tempos a tempos. E o apetite por novos géneros, também cresce, embora saiba que a minha base será sempre, sempre, a poesia. É de onde eu venho. E com muito orgulho.

Sendo mãe, e trabalhadora, que tempo dedica à escrita?

(Risos)

As insónias são as melhores amigas nesse aspecto. Infelizmente, ainda não é a escrita que me paga as contas, mas, um dia, quem sabe?! O importante era começar e é isso que 'Lua Nova' é: o início de um longo projeto. À medida que ele possa crescer e tornar-se ainda mais relevante na minha vida, espero ganhar mais tempo para escrever, para investir em workshops e realizar outras atividades que também tenham por base a escrita.

O que a inspira?

Tudo! A vida. A morte. Um sorriso. Um toque. Um beijo. O mar. O meu filho. As pessoas. A sensação de amar alguém. A solidão. O vazio. Desde que respire e apreenda o mundo, tenho a tentação de escrever sobre ele.

O que sonha a Luana?

Ui!... Tanta coisa!...

(Sorriso maroto nos lábios e lágrimas a aflorar os olhos)

Voltar a abraçar os meus pais! Tornar-me, um dia, uma escritora de referência. Ser uma pessoa otimista. Ensinar o meu filho a ser feliz. Fazer 'as minhas pessoas' orgulharem-se de mim... Viajar pelo mundo fora. Ser amada... Tanta, tanta coisa!... Por agora, sonho que embarquem comigo neste 'Lua Nova' e que apreciem a viagem por este meu quase 'diário'...

Já se pode adquirir o “Lua Nova? Onde?

A obra entrará no circuito comercial na altura do lançamento.

Poderá vir a ser adquirido, após o lançamento, através do site da Emporium Editora, tanto o livro físico, como o e-book, também na FNAC, Bertrand e Wook online. Estamos a estudar a possibilidade de introdução em livrarias específicas e, dentro de algum tempo, também terei a hipótese de ter comigo exemplares disponíveis para venda.

 

Transcrevemos o poema de abertura, que demonstra bem a sensibilidade da autora:

 

 

 

 

'PELA PIADA DE… (abertura)

vejo pétalas de rosas

a esvoaçar esta noite

e a caírem doces

nos teus braços e no meu colo

oiço a euforia das borboletas

sinto a leveza do bater

das asas de cada uma

para lá da janela fechada

vejo irradiar o ofuscante

brilho das estrelas

que nos contemplam

nesta inocente cumplicidade

de um casal apaixonado

pela própria ideia de amar.

Vens dar-te a mim sem reservas

Quase mesmo sem barreiras

E eu para ti sou tudo

Mãe, irmã, amiga, amante

Filha, companheira nesta viagem

Por uma vida que nunca sonháramos

Até ao dia em que os meus olhos

Olharam através da lente

E conheceram os teus e os teus,

Por piada, se entregaram aos meus…'

 

 

 

 

 

 

Filha de cabo-verdianos, a autora nasceu em Lisboa, em 1983. Embora boa aluna no seu trajeto escolar, a sua versatilidade leva-a oscilar entre ciências e letras.Concluido o 12° ano, decide-se por Comunicação Empresarial e ingressa no Instituto Superior de Comunicação Empresarial (ISCEM), curso que interrompe no 3°ano, por ocasião da morte do seu pai biológico. Faz então aquela que considera a viagem da sua vida, a Cabo Verde, em 2004 e o regresso a Portugal é forçado pela urgência de um curso que não chega a terminar. Oscila entre diversos tipos de empregos, pois, como afirma, há que pagar as contas. Atualmente, depois de um segundo ingresso na vida académica em Estudos Gerais, no ano de 2011, na FCUL, e após outras ocupações, trabalha numa escola. Para trás ficaram os desejos de ser professora ou obstetra, mas Luana vê em Ana Thomaz de Oliveira, a oportunidade de iniciar uma carreira na escrita e realizar, assim, esse sonho de infância. O outro sonho de infância, confessa, realizou-o com 26 anos, ao tornar-se mãe.

 

 

 

 

cyberjornal, 6 Fevereiro 2019

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