“Entra Marcos!” Santo António das Areias em festa

SAASaoMarcos17Em Santo António das Areias, Marvão volta a realizar-se a tradicional Festa de São Marcos, que terá início no dia 21 de Abril e se prolonga até 1 de Maio. São quatro dias de festejos com cerimónias religiosas, espectáculos tauromáquicos e musicais. Gastronomia, com destaque para a Rota das Tapas, que tem lugar nos dias 22 e 23 de Abril e o Festival de Sopas que decorre no dia 25, também faz parte dos festejos, tal como o artesanato, produtos regionais e um arraial com fogo-de-artifício.

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Com larga tradição, a Festa de São Marcos, no antanho, era marcada por um colorido multicultural, e ritos pouco usuais, que foram recordados pelo escritor castelovidense João Gordo (1881-1965), na sua obra “No Alto Alentejo- Lendas e Narrativas”.

No capítulo “Raia de Marvão - São Marcos”, João Gordo relata:

«Era o dia 25 de Abril, dia que a Igreja designava para receber o culto de S. Marcos, por ela venerado entre os quatro evangelistas de que os livros santos nos falam. A então pequena aldeia de Santo António das Areias, que demora uns quatro quilómetros abaixo de Marvão, celebrava a sua festa anual, em honra do Santo, e essa festa, plena de curiosidade entre as festas populares que ainda a esse tempo se celebravam em certos recantos provincianos, mergulhava suas tradições em época longíqua e desconhecida.

A pequena freguesia das Areias, como mais modernamente ousam chamar-lhe os menos conservadores, mas não os mais próximos vizinhos que mais intimamente a tratam tão só por Santo António, recebia nesse dia alguns milhares de forasteiros, levados aí pela especulosa entrada do boi na igreja paroquial , aspergida pelo prior da freguesia, que o acompanhava, com as palavras rituais, até à capela-mor: - Entra, Marcos! Entra, Marcos!»

Marcos era o nome dado a um bezerro oferecido cada ano, por algum lavrador local, em cumprimento de promessa, o qual deveria entrar na igreja para ser abençoado pelo pároco,

O autor detalha ainda mais a singular tradição que testemunhou no início do passado século:

«Até à hora de começar a função religiosa, - festa católica em que não faltava o mais intenso cunho pagão – não cessava a chegada de gente da outra banda da fronteira (…) Toucadas de rosas e envoltas na elegância multicolor dos mantons, as espanholas, durante largos anos, deram a festa de São Marcos, já de si bastante singular, grande mancha de cor, de caracter e de atracção.

(…) No grande desejo de verem o animal, magotes de espanhóis de ambos os sexos acotovelavam-se tentando passar à frente uns dos outros.

«Aspergido pelo prior, entrou no santuário, ao som das palavras já referidas: Entra, Marcos! Entra Marcos!

Momentaneamente cessou o burburinho e a comoção popular revelou-se por silêncio respeitoso. O bezerro, sempre seguido pelo pároco e pelos da irmandade, estes de opas vermelhas, chegou ao altar, estacando à frente de S. Marcos. E logo, +oucos momentos decorridos, abriu-se apertada clareira para que ele pudesse voltar-se, caminhando para a porta agora mais veloz e amedrontado pela vozearia, que de novo campeava».

cyberjornal, 10 de abril 2017

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