105 anos plenos de vitalidade

JoseMata17cy5Pepita Tristão (texto)

César Cardoso (fotos)

 

 

 

Nasceu há 105 anos, em Polima, o que certamente faz dele um dos mais velhos, senão mesmo o mais idoso natural da Freguesia de São Domingos de Rana e, possivelmente, do concelho de Cascais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(José da Mata e Celestino Costa)

josedammataCC17cyTrata-se de José da Mata, com quem falamos há dias, na casa onde vive sozinho, contando apenas com o apoio de uma instituição local e de uma funcionária que se ocupa da limpeza, alguns dias por semana.

A vitalidade do nosso anfitrião deixou-nos surpreendidos desde o primeiro instante, em que o vimos a espreitar por detrás das vidraças, à nossa chegada. Mal tínhamos confirmado a morada, já abria a porta e nos convidava a entrar.

Galgamos (com alguma dificuldade) os degraus de acesso à casa, onde José da Mata nos acolheu numa simpática sala, plena de fotografias que, expostas nas paredes ou sobre os móveis, ilustram a história de uma vida bem longa e cheia de afectos.

Filhos, netos e bisnetos compõem a sua rede familiar,  e embora não habitem com ele – alguns até estão bem longe – mantém contacto frequente.

Também se relaciona ainda com outros familiares mais afastados, caso do poeta popular Celestino Costa, que nos acompanhou aquando da feitura desta entrevista, e que é casado com uma sobrinha.

Por coincidência, a nossa visita ocorreu no dia em que a sua esposa faria 100 anos, se ainda estivesse viva. Perdeu-a há 11 anos e, desde então, tem preenchido os seus dias com longos passeios pela praia e na companhia de amigos.

Ultimamente tem deambulado menos, mas não deixou de ir às compras, quando necessário, nem de frequentar diariamente o café, ora perto de casa, ora bem mais longe, do outro lado da linha. Aproveita para dar dois dedos de conversa com os amigos e uma vista de olhos aos títulos do jornal. Também não perde uma oportunidade de jogar às cartas ou ao dominó.

«Agora, trazem-me as compras a casa. Compro o que necessito e depois vêm cá fazer a entrega», diz-nos o nosso anfitrião que, embora não se mostre dado a queixas sobre os condicionalismos que a idade impõe, nos foi confidenciando: «Já tenho dificuldade em ler as letras pequenas. Preciso de muita luz». No entanto, durante a nossa conversa, diversas vezes recorreu a notas, escritas em letra miúda e certinha, em pequenos papeis.

E, como a idade não perdoa, a audição também perdeu a sua acuidade, pelo que nos foi avisando, logo à chegada, que deveríamos falar alto, pois estava um pouco surdo.

José da Mata, que perdeu o pai com apenas um ano e meio, foi criado desde muito pequeno pelo padrasto. Cedo começou a ajudar na economia caseira, guardando os perus da família, pelos campos de Polima. «eu estava incumbido de os levar para o mato, onde se alimentavam, todos os dias». Por alturas festivas, junto com o padrasto, conduzia-os em bando, até Carcavelos, onde os vendiam, sobretudo, aos ingleses.

A escola começou tarde, «quase aos dez anos», administrada pelos mestres que exerciam em Abóboda, Trajouce e Talaíde. «Naquela época só havia uma escola em São Domingos de Rana e era lá que íamos fazer exame».

Entre os mestres, recorda um casal de apelido Felgueiras e, mais tarde, a “professora” Gertudes, ainda aparentada com a sua família.

Do tempo em que frequentou a Escola de São Domingos de Rana, tendo como colega, o seu vizinho Eduardo Luís Costa (pai do Celestino da Costa), dá destaque ao dia em que conheceu o Almirante Nunes da Mata:

«Um dia levaram-nos ao cinema, na Parede, que nessa época fazia parte da freguesia (São Domingos de Rana). Não recordo como foi, mas alguém disse ao senhor que um dos rapazes também se chamava José da Mata. Ele quis conhecer-me. Perguntou-me de onde é que a minha família era e ofereceu-me um livro. Foi muito simpático»

Concluída a instrução primária, José da Mata rumou para Lisboa, à procura de melhor vida. Teria então cerca de 15 anos.

Empregou-se numa tabacaria situada na Avenida Almirante Reis, onde permaneceu seis anos. Esteve depois cerca de três décadas, no Rossio, em outros dois estabelecimentos – o Café Central e a Tabacaria Lusitânia, da qual foi gerente. Mais tarde, transferiu-se para uma filial da Tabacaria Britânica, no Cais do Sodré, que geriu durante nove anos.

Reformou-se em 1979, aos 68 anos. Entretanto, manteve sempre contacto com a terra que o viu nascer e com os seus amigos de infância, que recorda por famílias. profissões e alcunhas. Entre eles, o seu primo João da Mata, guitarrista, poeta e grande divulgador do fado.

João da Mata rumara para Lisboa antes dele, pelo que nos primeiros tempos que viveu na capital  se cruzaram com alguma frequência. Desse convívio recorda algumas revistas a que assistiu, no Parque Mayer, em que o primo participou, enquanto guitarrista, a acompanhar quadros de fado. «Morreu devido à tuberculose, ainda era muito novo». João da Mata, poucos anos mais velho do que ele, nascera na mesma rua de Polima,  onde também se situava a casa dos pais de Celestino Costa. «Era uma localidade muito pequena onde todos nos conhecíamos e muitos tínhamos laços familiares».

Em Lisboa, José da Mata morou, durante muitos anos, na Cruz de Poiais. Foi lá que nasceram os seus dois filhos: José Eduardo, hoje com 77 anos e Lina, com 72. No entanto, sempre manteve ligação com a sua terra Natal, onde tinha a casa da família e passava férias.

No entanto, quando decidiu voltar para a “Linha”, em 1969, preferiu instalar-se mais perto do mar. «Gosto muito de ir até à praia, onde vou quase todos os dias. Antes, ia a pé até Cascais e voltava no comboio. Agora contento-me em descer a rua e dar uma voltinha para ver o mar».

Bem inserido na comunidade - Dou-me bem com toda a gente - orgulha-se da pequena homenagem que a Junta de Freguesia lhe fez quando completou 100 anos.

«Deram-me uma medalha com a data inscrita e convidaram-me, a mim e aos meus filhos a jantar num restaurante local».

José da Mata que já viu partir os seus irmãos mais novos, não parece ter segredos para a sua longevidade. Não segue qualquer dieta especial, nem se priva do seu café e, durante muito tempo, fumou de tudo. Cigarros, cigarrilhas, charuto e até cachimbo. Talvez o exercício físico que lhe exigem os seus passeios seja a chave da boa forma que aparenta e que orgulha amigos e familiares, sobretudo os seus dois filhos, quatro netos e oito bisnetos.

 

cyberjornal, 15 Fevereiro 2017

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