O continente e o conteúdo na passagem d’ano do Casino Estoril

CasinoEstoril1MC2013ppPor: José d’Encarnação

 

 

Acho sempre muita piada aos rótulos dos vinhos. «Um vinho macio, com alguma adstringência e corpo mediano e elegante». Bebo um copo e outro mais, e fico a pensar no tal ‘corpo mediano e elegante’…

 

 

 

 

 

 

Lembrei-me disso, ao ler a ementa: «Lavagante da costa atlântica com emulsão balsâmica de toranja», «tornedó de novilho salteado com foie gras trufado e creme de morilles», «dôme de baunilha recheada com avelã»… A dôme era mesmo isso: uma cúpula, como a de S. Pedro, bonita de ver e gostosa de saborear; quanto ao trufado era o tornedó e não o delicioso foie gras, porque o rodeavam lascas de apetitosas trufas, a que não resisti; sobre o significado de ‘morilles’ interroguei os companheiros de mesa, que diligenciaram numa explicação que não entendi muito bem, pelo que ora fui investigar: são cogumelos muito especiais, cuja designação parece não ter uma tradução precisa para português; que o seu creme se recomenda, isso sim!

Foi o jantar acompanhado pela actuação – nem sempre em fundo – dos Citizen’s Band, dos Cat Green & Strangle Fellas e dos Dynamite, assim como de um suave branco alentejano e de um encorpado tinto do Douro, que nos prepararam para o champanhe ‘brut imperial’, de cave bem famosa, com que, trincadas as doze sultanas ao bradar da meia-noite, brindámos ao novo ano, tchim-tchim, companheiros, saúde!...

Repleto o Salão Preto e Prata do Casino Estoril.

 

O espectáculo

 

Encantou, claro, Carlos do Carmo. A partir da meCarlosCarmo2014ia-noite e três quartos. Mui gostosamente o fomos acompanhando, em reportório de todos bem apreciado. Contudo, importa dizer que, se apreciámos os fados e até pedimos mais um, assim como se aplaudiu com calor os seus convidados Marco Rodrigues e Raquel Tavares, o virtuosismo de um José Manuel Neto, à guitarra portuguesa, é do melhor que se pode escutar, porque o guitarrista acompanha, sim, mas dá largas ao seu dedilhar, como que parte à desfilada por esses vales e montes além, trinando alegre, para, no momento exacto, voltar ali, à serenidade do acompanhamento puro. Um espectáculo dentro do espectáculo! E Camané foi (ou não…) apanhado de surpresa: se queria vir até ao salão preto e prata tinha de… pagar! E desceu, a pedido, lá da patilha de cima onde se acoitara, discreto. E que bem que pagou! Não apenas a duo com Carlos do Carmo, como acontecera com os outros dois fadistas, mas – tal como eles – também a solo, na voz quente, sem adstringência (!) com que nos brindou.

E continuando nesta onda de ‘continente’ e de ‘conteúdo’, acrescentar-se-á que era exíguo o continente para os pares que se decidiram por um pé de dança. O palco, desta feita, não recuou nem baixou, mas todo o espaço disponível, aqui e além, foi bem aproveitado para, num balançar ritmado, se afastarem pensamentos menos apropriados ao celebrar a alegria de um renascer de esperança! Que se viva em 2015!

 

 

cyberjornal, 3 de Janeiro de 2015

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